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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Fazendo media Training com os comandantes da PMERJ





Coronéis são treinados para conceder entrevistas

Este foi o último módulo do Prog de Treinamento e Especialização em Comunicação Estratégica
Foi realizado nesta terça-feira (17/03) o último módulo do Programa de Treinamento e Especialização em Comunicação Estratégica, idealizado pelo Coronel Frederico Caldas, coordenador da CComSoc.

Programa foi idealizado pelo Cel Frederico Caldas (meio)
Programa foi idealizado pelo Cel Frederico Caldas (meio)

Além de acompanhar as palestras dos jornalistas Gustavo de Almeida (editor de novos projetos de comunicação móvel do Infoglobo) e Victor Javoski (da Subsecretaria de Comunicação Social do Governo do Estado) – que abordaram assuntos como a relação entre a mídia e as redes sociais; a visão estratégica destas novas ferramentas; e o momento em que o público também passou a ser emissor de informações e notícias – os coronéis também encararam um verdadeiro “teste de fogo” durante a simulação de diversas situações de entrevistas comuns ao dia a dia do policial militar.
Sob o comando da chefe da Assessoria de Imprensa da PMERJ, Marcela Lobo, as jornalistas Aline Veroneze (CComSoc), Isabele Benito (SBT) e Liane Borges (SBT) desenvolveram uma série de perguntas desafiadoras abordando vários assuntos relacionados à segurança pública. O objetivo principal era  capacitar e habilitar os militares, a concederem entrevistas aos diversos órgãos de imprensa.

Repórteres do SBT fizeram perguntas testando os policiais
Repórteres do SBT fizeram perguntas testando os policiais

“Hoje o nível de dificuldade foi muito grande, e a gente tenta colocar este treinamento o mais próximo possível da realidade para que estes comandantes saibam o que eles vão enfrentar no dia a dia” explicou o coronel Frederico, que também afirmou que a iniciativa será ampliada:
“A partir de agora a gente vai iniciar o mesmo treinamento com mais coronéis à nível de diretoria e depois passar para comandantes de unidades por CPA”, disse o coronel Frederico.
De acordo com o comandante do 2° CPA, coronel José Macedo, o curso enfatizou a importância do trabalho da corporação junto à imprensa.
“Depois desta instrução, com certeza nós saímos daqui bem mais capacitados para lidar com as questões de mídia e contato com a imprensa. Serviu também para desmistificar algumas crenças que tínhamos e nos aproximar dos jornalistas, o que nos deixa mais à vontade e preparados para atender estas ferramentas de divulgação de notícias, que são essenciais ao nosso trabalho” destacou o coronel Macedo.
Também participaram deste treinamento, além dos coronéis comandantes de CPAs, o capitão Maicon Pereira e a Tenente Tatiana Lima, porta-vozes da PMERJ.



https://blogdocelerir.wordpress.com/2015/03/20/coroneis-sao-treinados-para-conceder-entrevistas/

Fedra, o espetáculo inesquecícel de Fernanda Montenegro

Leia no site da Funarte

A Fedra de Fernanda Montenegro


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Um dos espetáculos de maior repercussão da carreira de Fernanda Montenegro foi Fedra, texto de Jean Racine, traduzido por Millôr Fernandes, com direção de Augusto Boal. Cartas do acervo deste diretor no Cedoc da Funarte mostram que Boal, que estava em Paris, planejou seu retorno ao Brasil com o objetivo de montar esse espetáculo com o casal Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Ele menciona que se planejaria de acordo com a agenda de Fedra. Em entrevista sobre os valores morais abordados na peça, Boal fala de Teseu como alguém que impõe uma moral rígida, sob a qual nem ele mesmo se submete. “Nas tiranias isso sempre existe… Disso deriva o núcleo da obra: de que modo você, como ser humano, pode conviver com os outros?”, pondera.
Diferente da tradução anterior, feita por José Oiticica, na versão de Millôr optou-se por uma linguagem mais acessível. Nos arquivos da Funarte é possível encontrar também essa nova adaptação, com marcações à caneta, em uma revisão final entre Millôr, diretor e atores. Com a pontuação cênica de Fernando Torres, o texto adquiriu também tom mais crítico.
Pelo elenco dessa versão de Fedra, produzida pela empresa Fernando Torres Diversões, passaram: Bete Erthal, Edson Celulari, Giulia Gam, Jacqueline Lawrence, Joyce de Oliveira, Sebastião Vasconcelos, Wanda Kosmo, Cássia Kiss, Jonas Mello, Linneu Dias e Fernando Torres. Cenário e figurino ficaram por conta de Helio Eichbauer.
Anotações pessoais de Fernando Torres sobre a temporada no Rio de Janeiro, nesta galeria de imagens, dão uma ideia de como foi montada a equipe: com dez atores, iluminador, diretor de cena, camareira, sonoplasta, secretário e um administrador. Outro documento da galeria de fotos, datado de março de 1987, conta que o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos do Estado de São Paulo (Sated/SP) encaminhou a Fernanda e Fernando um manifesto contra censura e pediu a leitura deste no palco.
A narrativa do teatro clássico francês, datada de 1677, trata da paixão de uma mulher com fim trágico, tanto para ela quanto para o amado inocente. A peça acabou resultando em uma discussão sobre o papel da mulher e de seus desejos na sociedade brasileira dos anos 1980, três séculos após o texto original. O espetáculo levantou questões sobre a sexualidade feminina e a consequencia disso em seu papel social, como mãe, esposa, cidadã, em uma sociedade em que seus sentimentos afetavam a moral e o destino, inclusive, da sua descendência. Um grande desafio, mesmo para uma atriz já consagrada como Fernanda.
A postura de Fernanda Montenegro, indo além de uma leitura superficial e óbvia, fica evidente ao observarmos suas anotações feitas à caneta, enquanto estudava as falas, como mostra o documento do acervo pessoal da atriz doado à Funarte. Em um pequeno pedaço de papel, ela anotou: “Estudando essa personagem, vejo Fedra tão próxima, tão contemporânea. Há uma dualidade feminina frente ao mundo masculino. Mais do que nunca, as mulheres, certamente conduzidas por Vênus, discutem, esclarecem, reconduzem. Fedra é o mito da insurreição feminina”.
O mito conta que Fedra já descende de uma mãe condenada por ter cedido aos encantos apresentados por Vênus. Assim, casada com o poderoso Teseu e predestinada aos maus tratos, ela também acaba envolvida pelos excessos da paixão. Encantada pela virilidade sem tirania do enteado Hipólito, vê-se apaixonada pelo jovem rapaz. Ele, no entanto, ama outra e não a corresponde.
Quando Teseu, o marido, volta de uma longa viagem, a ama de Fedra acusa Hipólito do “crime” de sedução. Como vingança, Teseu planeja com o “Deus dos Mares” a morte do próprio filho, pelas garras de um monstro marinho. Ao saber do assassinato do amado inocente, da injustiça da condenação, Fedra confessa sua paixão e comete suicídio. Não há um pedido de perdão, mas o desejo de libertar o amado, de livrá-lo da desonra pública.
Em fevereiro de 1986, o elenco de Fedra realizou ensaios abertos, cobrando 1/4 do valor do ingresso; à época, 25 mil cruzeiros. As apresentações ocorreram no Teatro de Arena, no Rio de Janeiro, inaugurado por Augusto Boal duas décadas antes. O espetáculo circulou por São Paulo, Taubaté, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, Porto Alegre, entre outras cidades, causando diferentes reações.
Em Recife, em outubro de 1986, no Teatro do Guararapes, muitos na plateia não compreenderam e saíram antes do fim, ou mesmo dormiram durante a apresentação. Já em Porto Alegre, a última temporada na capital gaúcha, por exemplo, foi encerrada com uma homenagem com uma chuva de flores.
Fedra foi encenada em vários países, por diferentes companhias, mas o trabalho estrelado por Fernanda Montenegro e Edson Celulari suscitou elogios em todo o mundo. Cartas do acervo da Funarte entre Augusto Boal e o Ministério de Cultura da França evidenciam que o espetáculo, inclusive, fez parte das comemorações do Ano França-Brasil, em 1986, obtendo muito sucesso.
Por Aline Veroneze
Revisão de Maria Cristina Martins e Pedro Paulo Malta

O Casal Torres e o teatro no Brasil

Leia no site da Funarte

Fernando Torres e o desafio do empreendedorismo no teatro brasileiro


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Fazer teatro no Brasil foi, por muito tempo, uma atividade de apaixonados, com pouco ou mesmo nenhum retorno financeiro para artistas, produtores e diretores.  Autodidatas, os membros das equipes teatrais eram obrigados a ter uma outra fonte de renda, como Fernanda Montenegro, que lecionava português para estrangeiros no Berlitz. Profissionalizar a atividade ia além de capacitar-se. Exigia uma visão empresarial, de transformar a cultura efetivamente em um gerador de renda, para que pudessem se dedicar integralmente aos palcos.
O médico Fernando Torres, apaixonado pelos encantos dessa arte, soube empreender. Começou como ator, aos 22 anos, no teatro universitário, com a peça A dama da madrugada”, de Alejandro Casona e direção de Esther Leão. Ingressou na companhia de Eva Todor e, já casado com Fernanda Montenegro, mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo.
Contratado pelo Teatro Maria Della Costa, fez assistência de direção de Gianni Ratto e, mais tarde, passou a atuar e fazer a assistência de direção no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em 1958, estreou como diretor em Quartos separados e se destacou pela precisão do ritmo e da marcação das cenas.
Assim, tendo passado pelas funções de ator, assistente de direção e diretor, começou um intenso trabalho de produção, fundando a própria companhia, o Teatro dos Sete, em 1959, com sua esposa Fernanda Montenegro e os companheiros Sergio Britto, Ítalo Rossi e Gianni Ratto. Na galeria de imagens pode-se ver a certidão de registro na junta comercial, solicitada em 1961, da empresa Fernando Torres Diversões.
Em seguida, como bom empreendedor, Fernando Torres empenhou-se em conseguir os recursos necessários. No acervo pessoal do casal doado à Funarte, podemos encontrar, entre fotos, cartas, documentos e vários pedidos de crédito, um rascunho digitado a máquina, com correções riscadas à mão, destinado ao Banco Nacional de Minas Gerais, para a montagem de quatro espetáculos, um deles, O interrogatório, de Peter Weiss, que recebeu o prêmio Moliére Especial pela produção. A busca de crédito ou patrocínio trouxe resultados cada vez mais positivos na medida em que as peças da Fernando Torres Diversões obtinham sucesso de público e crítica, tornando-se assim uma constante forma de viabilizar a produção, como mostra outro documento, com data de vinte anos mais tarde, com o pedido à Petrobrás de patrocínio à peça Fedra.
Fernando Torres tornou-se um diretor reconhecido. Premiado como Diretor Revelação por O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, dirigiu também outras peças de sucesso, como A mulher de todos nós, de Henri Becque, O homem do princípio ao fim, de Millôr Fernandes,  A volta ao lar, de Harold Pinter, Marta Saré, de Gianfrancesco Guarnieri, e O inimigo do povo, de Henrik Ibsen. Além disso, assinou a produção de O interrogatório e de A longa noite de cristal, ambos com direção de Celso Nunes, e de Computa, computador, computa, de Millôr Fernandes. Apesar de tanto sucesso, na sequência levou um prejuízo astronômico ao ter a peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, proibida pela censura.
Com uma visão empresarial de quem precisava rapidamente recuperar o investimento e ganhar fôlego, o casal montou uma peça leve, acima de qualquer suspeita, que falava de costumes da burguesia francesa, de riso fácil e público certo. Nesse contexto, levaram aos palcos O amante da madame Vidal, de Louis Vernevil, já encenado no início dos anos 1950 por Dulcina de Moraes. O texto, traduzido por Millôr Fernandes, foi representado com cenários de Marcos Flaksman e figurino de Kalma Murtinho, além dos atores Afonso Stuart, Rosita Tomaz Lopes, Rogério Fróes, Renato Pedrosa, Otávio Augusto, Suzy Arruda e Labanca.
Na pré-estreia, Fernanda escreveu uma carta, a todos os jornais, dizendo que o desejo de atuar nessa peça vinha da adolescência, quando assistiu à Dulcina pela primeira vez. Recortes de jornais do centro de documentação da Funarte sobre a peça mostram que Fernando e Fernanda contrataram cem meninos da Casa do Pequeno Jornaleiro e distribuíram cartas assinadas pelo casal nas residências, comércio, carros e esquinas, chamando o público para o teatro. Quem trouxesse o panfleto receberia 20% de desconto. A ideia deu certo.  A soma da direção ritmada de Fernando, que acrescentou comentários irônicos em cena aberta, com o talento de Fernanda Montenegro, resultou na transformação do boulevard francês em uma crítica social ao estilo de vida da burguesia. Sucesso de público!
Ao falar do período em que participou de O amante da madame Vidal, o ator Otávio Augusto diz: “Tive oportunidade de trabalhar com Fernando como diretor. Com sua sensibilidade e confiança, eu, junto com Fernanda, consegui momentos brilhantes. O produtor Fernando é uma pessoa que respeita o ator”.
Depois de voltar a atuar, de 1973 a 1976, em Seria cômico… Se não fosse sério, de Dürrenmatt, Fernando novamente acumula as funções de diretor, produtor e ator em A mais sólida mansão, de Eugene O’Neill, de 1973. Atua e produz em É…, de Millôr Fernandes; em Assunto de família, de Domingos Oliveira, e em Fedra, de Jean Racine.
Após a temporada atuando em Rei Lear, de William Shakespeare, Fernando entra em uma sequência de produções de espetáculos de Fernanda Montenegro: Dona Doida, um interlúdio, de Adélia Prado;  Suburbano coração, texto e direção de Naum Alves de Souza; e Gilda, de Noel Coward. Participou de 19 filmes, além de seriados e novelas. Foi homenageado com seu nome em duas casas de espetáculos: um teatro em Tatuapé, em São Paulo, e uma arena de apresentações culturais no Rio de Janeiro, no bairro de Madureira, na capital.
O entusiasmo pelo teatro, o interesse nos novos talentos, o empenho em incentivar os jovens e garantir as melhores condições para o trabalho fizeram com que Fernando Torres acumulasse funções, se tornasse um motor que fazia as coisas acontecerem mesmo quando o contexto não era o ideal, entrando para a história como um artista que viabilizou uma intensa produção no teatro brasileiro.
Nascido em 14 de novembro de 1927, em Guaçuí, no Espírito Santo, Fernando morreu aos 80 anos, em 4 de setembro de 2008, em sua casa, no Rio de Janeiro.
Por Aline Veroneze
Revisão de Maria Cristina Martins e Pedro Paulo Malta

Curiosidades da cultura nacional: Luiz Carlos Ripper

Leia no site da Funarte

Detalhes de Luiz Carlos Ripper


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Os detalhes dos desenhos de Luiz Carlos Ripper no Cedoc da Funarte contam a história da vanguarda do teatro brasileiro. São figurinos e cenários, minúcias de caracterização de personagens ou ambientes, como os da peça Capitu – inspirada no livro Dom Casmurro, de Machado de Assis – ou do filme Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos. Obras do mesmo homem que pôs abaixo o tradicional palco italiano no Teatro Ipanema, construindo no lugar uma enorme passarela, transformando as relações sensoriais entre público e atores.
As linhas físicas, estruturais, do palco do Teatro Ipanema não foram as únicas rupturas de Luiz Carlos Ripper. O artista, estudioso e professor, buscava sempre as raízes brasileiras, a inovação, os “nãos” ao que estava estabelecido sem contestação. Foi o responsável por figurinos de astros tropicalistas, deixou sua marca no Cinema Novo, tornando-se o primeiro diretor de arte do cinema brasileiro. Em 53 anos de vida, esteve envolvido, do roteiro à produção, passando por luz, cenário e figurino, em 16 filmes e 27 espetáculos teatrais.
Nesta galeria de imagens, temos uma amostra do que existe digitalizado na Funarte e que permite que conheçamos, por exemplo, o figurino cheio de detalhes de Hoje é dia de rock, de José Vicente, de 1971, com direção de Rubens Corrêa, que ganhou o Prêmio Governador do Estado de melhor figurino.
Ripper teve seu talento e inovação reconhecidos também em El dia que me quieras, de José Ignácio Cabrujas, premiado como um dos melhores espetáculos de 1980, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Outra conquista foi o Prêmio Shell de melhor cenografia por Extra-Vagância, de Dacia Maraini.
Além de cartazes e outros itens para pesquisa exclusivamente nos arquivos do Cedoc da Funarte, a biblioteca tem à disposição o livro A mão livre de Luiz Carlos Ripper, resultado da exposição de mesmo nome que aconteceu no Centro Cultural dos Correios em 2013, por iniciativa de Lídia Kosovski, companheira de pesquisas de Ripper, em homenagem aos 70 anos de nascimento do cenógrafo.
Professor em sua essência, Ripper viajava pelo país dando oficinas e cursos, entre um trabalho e outro nos palcos. Sua linha de pensamento era a de que, multiplicando conhecimento, traçavam-se novas linhas de ação, mais condizentes com a nossa identidade e, ao mesmo tempo, reinventando-a. Ripper participou da reforma didática da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, deu aulas de cenografia no Rio de Janeiro, assumiu a oficina Pernambuco de Oliveira, deu consultoria para a construção de novos teatros e, como diretor, formulou novas bases de atuação do Centro Técnico de Artes Cênicas da Funarte.
Luiz Carlos Ripper foi sempre muito ativo nos debates tanto sobre técnicas, formação dos artistas e suas interações, quanto sobre políticas públicas em prol desse setor. O cenógrafo, figurinista e diretor deixou impressas suas digitais em linhas teóricas e concretas, em figurinos, cenários e nas construções de muitos centros culturais.
Por Aline Veroneze
Revisão de Maria Cristina Martins e Pedro Paulo Malta

Conheça melhor alguns atores brasileiros no site da Funarte

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Sadi Cabral: dançarino, compositor, ator e diretor



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Nascido em Maceió, em 10 de setembro de 1906, Sadi Cabral tornou-se ilustre pela dedicação e paixão pelas artes em geral. Trabalhou no rádio, no teatro, na televisão, no cinema, além de ter sido bailarino, compositor e professor.
Aos 17 anos, Sadi tinha clara a sua vocação. Já morava no Rio de Janeiro quando começou a atuar no teatro, nas companhias de Lucília Pérez, depois na de Leopoldo Fróis e, então, na de Abigail Maia, na qual estreou profissionalmente, em 1924, na peça Secretário de Sua Excelência. No início da carreira, cursou dança e coreografia no curso de Maria Ollenewa e Richard Nemanoff e participou de alguns espetáculos no Teatro Municipal como bailarino.
Adepto do sistema de realismo psicológico do teatrólogo russo Constantin Stanislavski (1863-1938), Sadi dedicou-se também a estudá-lo. Stanislavski discriminou um conjunto de regras para a vivência de emoções autênticas em cena, com o objetivo de que o ator mergulhasse em sua memória emocional e estudasse cada intenção do personagem, de modo a dar a ele a sensação de realidade. Os conhecimentos adquiridos nesse período acabaram tornando Sadi, algum tempo depois, docente dessa matéria.
Em 1930, Sadi começou a trabalhar na Rádio Philips, no Programa Casé, que ia ar aos domingos e durou até 1936, quando essa rádio transformou-se em Rádio Nacional. A atração tinha quadros de radionovela, histórias policiais, minimusicais e quadros de humor, nos quais Sadi Cabral destacava-se pelas interpretações. O artista também passou a adaptar, para o rádio, clássicos da literatura brasileira. Foi nesse mesmo ano que surgiu para ele a primeira oportunidade no cinema, no filme Bonequinha de seda, de Oduvaldo Vianna. Logo em seguida, foi chamado para gravar Noites cariocas.
Depois da temporada de estudos, dança e rádio, Sadi Cabral volta aos palcos em Iá-Iá boneca, de Ernani Fornari. Em 1939, foi o responsável pela montagem de Guerras de alecrim e da manjerona, de Antônio José da Silva, com a Companhia Comédia Brasileira. Este foi o primeiro espetáculo do Serviço Nacional de Teatro (SNT), criado por Getúlio Vargas por sugestão de Gustavo Capanema, sob a direção de Abadie Faria Rosa.
Foi através de um concurso de teatro amador para peças em um ato, promovido pela Associação dos Artistas Brasileiros, que Sadi Cabral, Mafra Filho e Luiza Barreto Leite, integrando o grupo Os Independentes, ganharam destaque na imprensa. Eles venceram o concurso com a peça A verdade de cada um, de Pirandello, e entraram em temporada no Teatro Regina (hoje Dulcina), no Centro do Rio de Janeiro.
Sadi já não cabia só na função de ator. Após a temporada com Os Independentes, em 1941, o artista uniu-se à Companhia de Comédias Íntimas, de Raul Roulien. Dirigiu Como quiseres, de Shakespeare, para o Teatro do Estudante do Brasil, e Prometo ser infiel, de Dario Nicodemi. Entre os trabalhos de que participou nessa companhia, também estão a direção de cena deTrio em lá menor, de Raimundo Magalhães Junior, em que Sadi Cabral teve como colega de trabalho Cacilda Becker, e A grã-duquesa e o garçom, de Savoir.
Os anos seguintes foram de muita atividade. Entre outros espetáculos, Sadi Cabral atuou em César e Cleópatra e Santa Joana, ambos de Bernard Shaw; pela Companhia Dulcina, esteve em A ré misteriosa, de Bisson, da Companhia Itália Fausta.
Era meados da década de 1940 quando esse alagoano participou do Teatro Experimental Negro, atuando em O imperador Jones, de Eugene O’Neill, apresentando no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a situação do negro após a abolição. Em junho de 1949, passa a lecionar, desde o início, no Curso Prático de Teatro, que Santa Rosa conseguiu instalar junto ao Serviço Nacional do Teatro. Em 1956, Sadi Cabral entrou para o Teatro Brasileiro de Comédia e, pela atuação em Eurydice, de Jean Anouilh, direção de Gianni Ratto, recebeu o Prêmio Saci do jornal O Estado de S. Paulo. Nesse mesmo ano, lançou pela Sinter o LP Sadi Cabral interpreta poemas de Luiz Peixoto, em que declamava poemas de Bandeira.
No Teatro de Arena, Sadi Cabral trabalhou, entre outros, nos espetáculos Juno e Pavão, de Sean O’Casey;  A mulher do outro, de Sidney Howard e Só o faraó tem alma, de Silveira Sampaio, com direção de Augusto Boal. Recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo e a medalha de ouro da Associação Paulista de Críticos Teatrais pelo desempenho em A alma boa de Set-Suan, de Bertolt Brecht, e por A cantora careca, de Eugène Ionesco, em 1958.
Em 1959, já no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, Sadi participa do primeiro sucesso de Flávio Rangel como diretor, repleto de música e dança. O espetáculo Gimba – O presidente dos valentes, de Gianfrancesco Guarnieri, narra a vida em uma comunidade carente, dominada pelo jogo do bicho e coagida por uma polícia autoritária. A peça foi encenada no Festival Théâtre des Nations, na França, alcançando grande sucesso internacional.
Os anos 1960 chegam e Sadi faz uma breve passagem pela Companhia Tônia-Celi-Autran, em Lisbela e o prisioneiro, de Osman Lins, com direção de Adolfo Celi e Carlos Kroeber. Em seguida, junta-se aos atores do Teatro Oficina, em Todo anjo é terrível, de Ketti Frings, com direção de José Celso Martinez Corrêa. Atua na montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, com direção de Sergio Cardoso, e em Júlio César, de William Shakespeare, com direção de Antunes Filho.
Na década de 1970, Sadi Cabral trabalhou com novos diretores com uma linguagem mais pessoal, como em Oh! Que belos dias, de Samuel Beckett, com direção de Ivan de Albuquerque; Tango, de Slawomir Mrozek, com direção de Amir Haddad; Lulu, de Frank Wedekind, com direção de Ademar Guerra; entre outros. Sua última peça foi O homem do princípio ao fim, em 1981, de Millôr Fernandes.
O currículo de Sadi incluiu participações em mais de 40 filmes, entre eles, Pureza; Vinte e quatro horas de sono; O dia é nossoTerra violentaInconfidência Mineira e Escrava Isaura.Depois do primeiro convite da TV Tupi, em 1967, para que Sadi Cabral participasse de Paixão proibida, de Janete Clair, vieram muitos outros. Entre as décadas de 1970 e 1980, ele fez parte do elenco de diversos folhetins de televisão. Passou pelas TVs Bandeirantes, Excelsior, Tupi; Cultura e Globo. Nesta, interpretou o personagem Seu Pepê, que fez Sadi conquistar definitivamente os telespectadores e ganhar popularidade. A história do poderoso Hipólito Peçanha, que, confundido por Patrícia como um faxineiro da fábrica da qual era dono, faz-se passar por Seu Pepê, virou, inclusive, tema de uma marchinha de carnaval no ano de 1972. Seu último trabalho na televisão foi em Maçã do amor, novela exibida pela TV Bandeirantes.
Na música, Sadi Cabral fez a primeira composição em 1938, em parceria com Custódio Mesquita. A opereta A bandeirante, apresentada em outubro do mesmo ano no Teatro São Pedro, na capital gaúcha, Porto Alegre, deu início a uma amizade que rendeu outras canções. Sadi tornou-se letrista, escrevendo com Custódio, nos anos seguintes, as valsas Velho realejo,O piãoBonequinha, além do fox Mulher, que tornaram-se grandes sucessos na voz de Sílvio Caldas, Carmen Costa, Carlos Galhardo e do grupo Anjos do Inferno. Com Davi Raw, compôs os choros Sapoti e Cachorro Vagabundo, além do samba Ciúmes, gravado por Rubens Peniche.
Sadi Cabral faleceu em 23 de novembro de 1986, aos 80 anos, vitimado por uma parada cardíaca. Recebeu como homenagem o nome de uma rua no bairro Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro; de uma praça no Alto da Lapa e de um teatro, ambos em São Paulo. Seu acervo pessoal, com 282 documentos, foi doado à Funarte por Darcio Nazari Franco, filho da atriz Floramy Pinheiro, responsável por Sadi Cabral em seus últimos anos de vida. Há também na biblioteca da Funarte fotos de Sadi Cabral em diferentes atuações. Alguns dos itens constam nesta galeria de imagens, os demais estão disponíveis para consulta no Centro de Documentação (Cedoc) da instituição, no Rio de Janeiro.
Por Aline Veroneze
Revisão de Maria Cristina Martins e Pedro Paulo Malta

Um Dorival Caymmi que poucos conhecem - Uma publicação minha para o site da Funarte

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Ilustrador: um Dorival Caymmi que poucos conhecem



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As tantas mulheres cantadas por Dorival Caymmi ganharam forma. As curvas generosas, que inspiraram tantos suspiros nas letras das músicas, dessa vez não vieram de nenhuma atriz no papel de sereia ou mulata, mas dos traços do próprio compositor. Com um talento para escrever música já consagrado, Dorival também usou lápis, tinta e papel para representar muitos de seus personagens. Esse seu lado ilustrador e pintor é pouco conhecido do público, mas já foi publicado pela Funarte, em 1984.
As ilustrações, agora digitalizadas, foram reunidas em um trabalho com textos do pintor Carybé e do produtor e poeta Hermínio Bello de Carvalho, além de vários desenhos e pinturas de Caymmi, que representavam dez dos personagens de suas canções e um autorretrato.
Nas ilustrações, o tema mais frequente foram as mulheres: “Rainha do mar”, “Vou vê Juliana”, “O que é que a baiana tem”, “Dora”, “Marina”, “Rosa Morena”, entre outras.  A figura masculina aparece como personagem secundário em “Vou vê Juliana” e torna-se objeto principal em “João Valentão”, que, segundo Hermínio, é um personagem autobiográfico: “aquele que nunca precisa dormir para sonhar”. O mesmo ocorre em “Milagre”, inspirado na Semana Santa, segundo lenda dos pescadores baianos, em que Caymmi retrata a fartura de peixes nas redes de três pescadores.
O compositor pintou também os sabores de sua terra natal: do prato mais famoso, o vatapá, deu ao mundo o segredo da receita: “não para de mexer, que é para não embolar”. Outro dos personagens de seus desenhos foi a negra que circulava anunciando o acarajé.
Dorival Caymmi foi um dos artistas mais emblemáticos do Brasil. Suas composições saudaram as mulheres, as lembranças de menino em Salvador, mas, sobretudo, apresentaram ao mundo a unicidade da região: o vatapá, o acarajé e a vida dos pescadores. O gosto pela música veio de berço: o pai, um funcionário público descendente de italianos, tocava piano, violão e bandolim. A mãe, doméstica, descendente de portugueses e africanos, cantarolava pela casa, temperando a identidade do garoto com a brasilidade fruto dessa miscigenação, que nem sempre em nossa história ocorreu de forma harmoniosa.
Caymmi interrompeu os estudos para trabalhar como auxiliar de escritório e, mais tarde, como caixeiro-viajante. Sozinho, arriscou as primeiras notas ao violão. Em 1930, com a canção No Sertão, começou a apresentar-se nas rádios com suas próprias composições. Em 1935, já estreava o programa Caymmi e suas canções praieiras na Rádio Clube da Bahia. Dali para todo o Brasil foi um pulo. Apenas três anos depois, Caymmi estava na Rádio Transmissora, no Rio de Janeiro, cantando O que é que a baiana tem?, música que conquistou o país e virou parte da trilha do filme Banana da terra, com Carmem Miranda. Em 1939, Caymmi já fazia parte da equipe da prestigiada Rádio Nacional, onde conheceu a caloura Stella Maris, com quem mais tarde se casou .
Nas décadas seguintes, Caymmi produziu cerca de uma centena de músicas, entre elas: Samba da minha terra (1940), Rosa Morena (1942), Marina (1947), Não tem solução (1952), João Valentão (1953), Maracangalha (1956) e Oração para Mãe Menininha (1972).
Os sambas de Dorival Caymmi representavam tão bem a Bahia que o governo local deu uma condecoração ao compositor. O reconhecimento de seu talento não parou por aí: fez sucesso na novela Gabriela, com Modinha para Gabriela; foi homenageado como tema do enredo campeão apresentado pela Mangueira em 1986 e teve suas músicas regravadas por um número imenso de artistas.
Nascido em 30 de abril, Caymmi estaria completando um centenário em 2014.  Morreu em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, de falência múltipla dos órgãos. Onze dias depois, com saudade, como disse Herminio Bello de Carvalho, voltou para levar sua companheira de vida inteira, a ex-cantora Stella Maris.
Por Aline Veroneze
Revisão de Pedro Paulo Malta e Maria Cristina Martins

Intercom2017 - Curitiba - O artigo